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Ontem foi Dia dos Namorados e eu fiquei cá pensando com meus botões nesta coisa brega-romântica de ser, tão comum nos subúrbios e, vá lá!, nos centros urbanos também. Primeiro, tem o velho e batido lugar-comum dos ramalhetes de rosas vermelhas, né. Preferência número 1. Vendidas nos mercados de flores, floriculturas de shopping e até no trânsito. A rosa vermelha, símbolo da paixão, personagem de dez entre dez músicas românticas. Assim como aquele verso que rima “paixão” com “coração”.

O número dois é o imbatível carro de mensagens. Daqueles com direito a fogos, música em alto e bom som, aplausos, declarações de amor lidos por alguém com voz forçada de locutor e pagação de mico total na vizinhança. Isso quando a mensagem não é oferecida em pleno local de trabalho da pessoa amada. Mico total. Por sinal, nunca mais vi um carro de mensagens desse tipo… a última vez foi bem no ano passado, em Peixinhos, quando um casal apaixonado se declarava e comemorava um ano de casamento, nesta mesma época. Isso há uns cinco, seis anos atrás, fazia o maior sucesso.

O terceiro do top do breganejo, ainda no clima “só love”, são as mensagens fonadas. Você atende ao telefone, ouve aquela babação sem fim com fundo musical de hits dos anos 80 e, no final, ainda lhe perguntam se gostou da mensagem. Você é quase forçado a chorar, não se sabe se de emoção ou de vergonha.

Mas, enfim, o amor é brega, não é? Um viva para os apaixonados!

Festa no quintal

Hoje é aniversário de Boa Viagem, o bairro todo metido a chique do Recife onde acontecem assaltos seguidos de morte a torto e a direito. São 300 anos de alegria e a comemoração chega em meio às polêmicas demolições de predinhos antigos que foram marcos da arquitetura moderna dos anos XX e à pedra filosofal do parque de concreto mei verde que, num lance suburbano de homenagear os seus, leva o nome da famosa “quem”, que é nada menos que a mãe do nosso presidente.

A prefeitura mandou fazer bolo confeitado e tocar orquestra de frevo, mas a festinha só começa às 18h e eu é que não vou fazer fila pra pegar a minha fatia, apesar de sempre querer ter provado o bolo dos aniversários de Recife e Olinda, mas nunca ter chegado a tempo. É que o medo de assalto é grande. E duvido que os vizinhos de BV (não os meus, que não moro aqui, ainda bem), senhores muito respeitáveis, prestigiem a festa. Quem vai se divertir a valer mesmo é o povo do Pina e faz muito bem. Eta povim sem graça, esse de BV, não vê graça em nada mesmo.

Mas também, vamos e convenhamos, como diz minha avó! Comemorar o que, cara pálida? Tudo bem que o nome do bloco até diz “Nóis sofre, mas nóis goza”, mas assim também já é demais. Vamo fingir que nada tá acontecendo, varrer a sujeira pra debaixo do tapete e festejar no quintal da mãe joana. Ou da mãe Lindu, que seja. Bem brasileirinho.

Festas juninas chegando, hora de tirar a mala véia e remendada de dentro do baú e seguir para visitar aquela parentada no Interior. Não importa se é Interior muito perto ou muito longe. Todo e qualquer suburbano com espírito de viajante vai querer ir, juntar os trocados, os meninos tudo, e seguir viagem rumo à casa de… “querida, como é mesmo o nome do primo do tio do avô da tua cunhada, hein?”

Enfim, não importa. Você vai e, sendo pobre ou menos pobre, vai de ônibus mesmo. A diferença é pouco mais de alguns reais. No do pobre, vai a sogra, papagaio, periquito, colchão, criança tossindo alto e fazendo guerra de comida e um mundaréu de gente se esbofeteando para pegar logo a condução. Vai entrar um monte de ambulante, o ônibus vai demorar a sair e vai ficar um odor forte de laranja cravo.

O pinga-pinga também vai parando em toda estação, por isso se prepare para dormir, acordar, acordar, dormir, ler e distrair-se com a conversa do vizinho, que pode ser desde um viajante solitário ávido por um segundo de atenção até um “irmão” querendo lhe converter. Nada contra os evangélicos, mas isso é chato demais. Por isso, torça e reze para ficar com a primeira opção.

No ônibus do menos pobre tem ar-condicionado e Tv passando os melhores momentos do Axé Bahia dos anos 90, mas não se empolgue muito, não. Nele também vai subir um monte de ambulante e é bem provável que o odor de laranja-cravo, fechado no ar, fique ainda mais forte. Pense positivo: melhor cheiro de fruta que de outros odores desagradáveis, certo? Por isso, torça também para ter uma boa companhia ao seu lado. Na dúvida, finja que dorme. O consolo é que a condução do menos pobre chega mais rápido.

Agora, se quiser privacidade mesmo, o negócio é excursão, gente. Da escola, dos colegas de trabalho, da igreja, da comunidade. Tipo trem do forró, só que no ônibus, sabe. Com direito a passadinha em Toritama, para renovar o guarda-roupa. Procure se informar no seu bairro. Com certeza, haverá pelo menos uma van do forró disponível no centro comercial mais perto de você.

O assunto é porque ainda estou com a sensação de novo endereço (e também porque tô lendo um livro sobre o Complexo da Maré, que fala da laje, e vi anteontem um filme brasileiro em que o povo cozinha um mocotó enquanto reforma o puxadinho). Pois bem. É justamente dessa festinha de recepcionar o povo na casa nova que eu vim falar hoje.

Gente chique fala open house, mas já teve tempo em que era “inauguração da casa nova”, assim, em português mesmo. E persiste o clima de bebidas e frios, despojamento, todo mundo sentado em almofada no chão porque ainda tem móvel encaixotado. Ou então é aquela: “cada um traz um pratinho” e no final é uma salada indigesta de pratos que não combinam entre si, que vou te contar… Não há sal de eno ou engov que dê conta.

Mas eu tava pensando que nunca passei por isso, sabe. Primeiro porque sempre morei em apê e isso de inauguração de laje não existia. Depois porque só me mudei uma vez e foi uma confusão tão grande (não, não fui despejada, tá?) que até na hora da mudança a gente tava hospedando visita, que eu nunca vi uma casa pra ser tão apreciada pra visitação como a nossa, tanto lá quanto cá.

Puxei aqui da mente e também não lembro de ter sido convidada para um open house da vida. Nem pra feijoada na laje, nem nada. Quem tiver de casa nova, me convida, tá. Eu juro que levo uma comidinha gostosa.

A flor da babosa

flor_da_babosa.jpgEu sempre quis um jardinzinho com flor, mas morando em apê ficava sempre difícil. Também as tentativas de plantar não davam certo. Mas não é que, do nada, nasceu uma flor lá no pé de babosa?

Isso mesmo, aquela plantinha que se coloca no cabelo pra ele amolecer. Lá em casa a planta vingou, alastrou-se, e até flor deu. Eu, que nunca tinha visto uma flor de babosa na vida, não podia deixar passar a oportunidade e registrei. Taí.

Não, a casa não caiu. Mas como toda mudança feita com a ajuda de vizinhos (e que ajuda! Uma verdadeira mão na roda!), demora um pouquinho mais para arrumar. Por isso o blog não está atualizado. Além disso, tô sem assunto. Sugestões serão bem-vindas. E se quiser se aprochegar com um pratinho, pode vir que a casa é sua.

bolo1.jpgE então. O nosso blog Suburburinho está fazendo aniversário. Um ano, já. Como o tempo passa rápido! A comemoração vai ser à base de muito cajuzinho e frevo-cola, afinal, em festinha de criança não entra bebida alcoólica.

Abre-caminhos

Hoje é dia de São Jorge e, como não poderia deixar de ser, fica aqui a homenagem do Suburburinho. Afinal, ele é o mais querido, o mais popular. Eu fico pensando assim: os pescadores dedicam a fé a São Gonçalo. O Nordeste inteiro festeja junho com o trio Tonho, Pedrinho e João. O Rio comemora São Sebastião.No interior e em alguns bairros afastados, o Cosme e Damião (Corrmedamião) é esperado com alegria pelas crianças doidas por uma cárie… No Recife, a Senhora da Conceição, mais que a padroeira Do Carmo, move multidões, comércio, inverte trânsito, o escambau.

Mas nenhum outro é como São Jorge, o guerreador. Se o espírito não me foge – pra usar uma expressão de voinha –, já diz a letra da música: “Em toda casa brasileira tem um quadro de São Jorge”. E não só nas casas, mas nos barzinhos, mercearia, na lua, na chuva e na fazenda, lá está ele. É tão popular que está presente até no sincretismo religioso: é o Ogum do candomblé, aquele que abre caminhos. Com certeza a imagem está na sua mente, o verde e vermelho do herói ferrando o dragão.

São Jorge

Tudo bem que a imagem de São Jorge até é brega, mas eu adoro. Ela está lá no meu quarto, moldada numa caixinha de fósforos, encomenda especial que fiz à minha madrinha numa de suas viagens. Guerreia, São Jorge!